A empatia como agente transformador das relações humanas

Autor: Giovana Campos


A empatia como agente transformador das relações humanas 

 

Uma das palavras mais usadas na atualidade é “empatia”. Toda vez que escutamos uma história, vemos ou lemos sobre algum acontecimento em que alguém desconsiderou ou desrespeitou os sentimentos de alguém, sempre se levanta a questão da falta de empatia. Mas o que é ser uma pessoa empática? A capacidade de compreender os sentimentos alheio e de se colocar no lugar do outro, sentindo suas dores, alegrias, preocupações ou quaisquer outros sentimentos e respeitar esse momento, sem julgamentos, nos faz uma pessoa empática.

A citação do Evangelho “Tratai todos os homens como quereríeis que eles vos tratassem” (Lucas, 6:31) nos traz uma mostra do quanto a caridade e a empatia caminham lado a lado. Mas é possível colocar o conceito de empatia na formação profissional para que auxilie a equipe de saúde a ter um olhar mais humanizado no tratamento? Conversamos com o médico Rodolfo Furlan Damiano, da AME-São Paulo, sobre a relação entre empatia e espiritualidade nos cuidados de saúde e como inserir esse conceito no cotidiano do atendimento ao próximo.

 

Como definir a empatia?

Rodolfo Furlan Damiano – Assim como diversos outros conceitos abstratos, não há uma única definição de empatia e muito menos um consenso entre todas as partes. Entretanto, seja em nível teórico-acadêmico, seja em nível do conhecimento geral ou senso comum, é fato que quando falamos sobre empatia nos vêm em mente dois conceitos básicos. O primeiro se refere a uma capacidade quase que inata, intrínseca, afetiva-emocional, de sentir a dor do outro, sofrer junto com o outro; ou o oposto, sorrir junto com o outro e se alegrar com ele. Esse primeiro conceito vem sendo chamado por alguns de simpatia, para diferenciá-lo de empatia, que seria mais esse segundo conceito que irei apresentar. O segundo é um pouco mais racional, referindo-se à capacidade humana de se colocar no lugar do outro, conhecer seus medos, anseios, valores e, dessa forma, ajudá-lo a enfrentar suas dificuldades. Estudos mais modernos de neuroimagem têm encontrado resultados semelhantes, com áreas cerebrais distintas, sendo ativadas para as diferentes respostas: afetiva-emocional ou cognitiva-racional. Certo é que ambas são importantes, mas merecem atenção e cuidado para se avaliar suas consequências diretas e indiretas, assim como a possibilidade de inseri-las no contexto acadêmico.

 

É possível inserir esse conceito no ensino universitário ao profissional de saúde em formação?

Damiano – Não só é possível como essencial. Devemos ter consciência de que essa já é uma área bastante abordada na graduação e acredito ser por meio de dois pontos principais: um teórico e outro prático. Do ponto de vista teórico, estuda-se o conceito de empatia, entendendo a diferença entre ele e outros conceitos (simpatia, compaixão, antipatia), estudando o impacto que tem na vida dos pacientes, compreendendo o impacto que tem em nossas próprias relações interpessoais (multiprofissionais, com os pares) e assistindo entrevistas de profissionais mais experientes e sensíveis que se utilizam da empatia, entre outros. Do ponto de vista prático, estimula-se o estudante a realizar entrevistas não clínicas, compreendendo quem é o doente que sofre (de onde veio? Quais suas dificuldades? Quais seus medos? Quais seus objetivos? Qual seu sentido na vida?), estimulando-o a ver além da doença. Mas existem dois pontos que eu considero principais e são pouco debatidos. O primeiro é a existência de espaços livres na formação, no qual o estudante tenha tempo para cuidar de si e de sua saúde mental. Outro é o estímulo à prática das artes (música, teatro, cinema, literatura), que são um estímulo importante para a sensibilidade do ser humano.

 

Há como medir o grau de empatia?

Damiano – Sem dúvida. Por meio de escalas autopreenchíveis, em que o profissional da saúde responde a diversas questões referentes ao seu grau de empatia (escalas como Jefferson Scale of Empathy, Interpersonal Reactivity Index), além de questionários em que o próprio paciente relata o grau de empatia de seu médico ou profissional da saúde. Entretanto, sendo um constructo abstrato, sua aferição não é fácil e está sujeita a alguns vieses, como, por exemplo, que o próprio indivíduo que responda tenda a achar que é mais empático do que realmente é. Por isso, mais estudos são bem-vindos nessa área.

 

Sendo o médico empático, isso traz alguma influência no tratamento/ resposta do paciente?

Damiano – Muitas. Tanto na percepção subjetiva do paciente quanto ao seu tratamento, o que sem dúvida leva a uma melhor resposta, mais rápida, e uma melhor aderência medicamentosa; mas também no fato de que uma maior empatia lhe permite captar melhor e mais purificadamente as queixas do seu paciente, tornando-o não apenas mais sensível, mas um médico melhor tecnicamente.

 

Existe relação entre empatia e espiritualidade?

Damiano – Sim. Uma relação próxima e de mão dupla. A espiritualidade, em um sentido mais amplo, pode ser definida como a busca individual de transcendência, sentido e propósito. Inúmeros estudos têm mostrado a relação inversa entre sintomas depressivos, ansiosos, ideação e comportamento suicida, ou mesmo físicos, como mortalidade, tempo de internação, marcadores inflamatórios etc., e espiritualidade-religiosidade. Indivíduos com maiores graus de empatia tendem a ser mais receptivos tanto a compreender, expressar, como também a utilizar as crenças de seus pacientes para o benefício de sua saúde. Esse ajuste fino entre a sensibilidade da espiritualidade com a razão da empatia é uma arma poderosa na transformação das relações, tanto clínicas quanto pessoais, e não só pode como deve ser estimulada entre todos nós.