Envelhecimento: qual a medida correta?

Autor: Giovana Campos


Devemos retardar o envelhecimento?

Giovana Campos

O culto ao corpo e à juventude sempre pautou a mídia nacional e internacional. Cada vez mais nos deparamos com fórmulas e tratamentos para nos manter jovens, porém temos de admitir: a idade passa para todos. O tempo, que tanto nos ronda, acaba trazendo ao nosso corpo rugas e expressões. Aos poucos, vamos percebendo que as nossas formas, nosso peso e nossa pele se transformam diante de nossos olhos e, então, surge a dúvida para alguns: é possível retardar o envelhecimento? Quanto isso é válido e quais os limites aceitáveis? Para tratar desse assunto, a Folha Espírita conversou com médicos geriatras pertencentes às Associações Médico-Espíritas de São Paulo e do Rio Grande do Sul, com o intuito de esclarecer alguns mitos sobre o envelhecimento.

Folha Espírita – O que fazer para envelhecer de forma saudável?

Carlos Durgante (RS) – Primeiramente, conscientizar-se de que o envelhecimento populacional é um fenômeno de massa, que a velhice chegará à grande maioria das pessoas que nascem hoje em países desenvolvidos (incluindo o Brasil) e poderá durar em média aproximadamente três décadas. Segundo, entender que a dimensão do que chamamos “saúde” não se restringe apenas ao corpo e à mente, mas também ao bem-estar espiritual. Em terceiro lugar, procurar seguir os aconselhamentos médicos postulados por instituições médico-científicas respeitadas mundialmente. Esses postulados se referem a comportamentos ou atitudes saudáveis que nada mais são que a prática regular de exercícios físicos, hábitos alimentares adequados, controle do estresse e das emoções negativas, um envolvimento ativo com a vida em seus aspectos social e espiritual. Não podemos esquecer também de manter os níveis de colesterol e glicose e a pressão arterial dentro da normalidade, bem como combater a obesidade e o sobrepeso, entre outros.

Rodrigo Bassi (SP) – O envelhecimento é uma fase natural da vida, que acompanha o processo de desenvolvimento do ser humano – em que as diversas fases da vida são interligadas, contínuas e ininterruptas, comparando-se a estações determinadas que se sucedem no tempo – como uma árvore que nasce da semente, cresce, se desenvolve, dá flores para finalmente dar frutos. Cada fase da existência terrena tem seus objetivos, dificuldades e oportunidades de crescimento e progresso espiritual.

Envelhecer com saúde é uma interação entre diversos fatores. Os mais conhecidos para a Medicina são a genética, estilo de vida e condições ambientais. Embora possuir uma carga genética favorável auxilie, ela não é tudo. Hoje, sabe-se que 70-75% da nossa saúde após os 60 anos depende da maneira como olhamos e vivemos a vida, ou seja, as nossas crenças, atitudes e escolhas que realizamos. Quanto mais cedo escolhermos viver com saúde, melhor saúde teremos com o avançar da idade. A boa notícia é que – embora com benefícios menores – sempre é tempo de começar.

FE – Envelhecer faz parte do processo natural da vida. No entanto, as indústrias farmacêuticas e estéticas promovem uma grande publicidade aos métodos antienvelhecimento ou anti-aging, através de plásticas rejuvenescedoras, implantes e/ou botox. É saudável a busca incessante pelos padrões joviais? Quais os limites do bom senso nesse caso?

Rodrigo Bassi – Infelizmente o processo de envelhecer ainda é olhado por muitas pessoas como uma coisa ruim, que precisa ser evitado a todo custo. Essa visão distorcida é muito comum mesmo entre os espíritas – ainda ligada ao preconceito e à transitoriedade da matéria, que enxerga no envelhecimento apenas as “perdas” referentes às doenças crônicas, fragilidade corporal, falecimento de entes queridos, isolamento social, além do declínio biológico e da “perda da juventude e da beleza” –, identificada para essas pessoas como um rosto sem rugas e um corpo escultural.

Muitos ficam ligados a esse olhar – seja por experiências pessoais ou familiares prévias, por preconceito, por força da mídia ou por desconhecimento – e sofrem intensamente, levando a quadros de tristeza, depressão, ansiedades e outros transtornos, desajustes importantes como os excessos que vemos todos os dias na ânsia de “manter-se jovem a qualquer custo”.

É natural que todos nós queiramos estar felizes e “de bem” com a nossa aparência externa e estética. Isso é saudável e faz muito bem para a autoestima. O equilíbrio e a harmonia nas formas exteriores do nosso corpo físico devem ser buscados, num padrão coerente com a idade biológica que se possui hoje, e essas práticas podem auxiliar nesse sentido. O limite é muito tênue e depende basicamente do bom senso e do equilíbrio. A opinião de um médico ou profissional de Saúde que estude as questões do envelhecimento – especialmente ligadas à esfera do emocional e espiritual – é de importância ímpar para que possa auxiliar no “bom senso” da definição de uma escolha por determinado método que possa levar a práticas exteriores de rejuvenescimento.

Em minha opinião, as pessoas que se preocupam em excesso com o desejo de “manter-se eternamente jovem” e impedir o processo natural de envelhecimento desperdiçam tempo e energia, quando poderiam aproveitar em plenitude essa oportunidade de vivenciar o envelhecer de maneira sadia e produtiva.

Um olhar expandido permite perceber que nessa fase há inúmeros “ganhos”, que, se bem aproveitados, levam a uma qualidade de vida e produtividade inquestionáveis. Esses ganhos são uma expansão da consciência com possibilidades mais livres de intercâmbio com o mundo espiritual externo e interno, levando a uma visão mais ampla da vida e dos relacionamentos, amadurecimento para lidar com as perdas, maior atenção com a saúde e maior tempo livre para dedicar-se às coisas que realmente deseja realizar. O tempo do envelhecer é a idade da Espiritualidade – apenas precisamos aprender a lidar com ela, pois, talvez, em nossa trajetória espiritual, seja a primeira vez que vivenciamos esse processo.

Carlos Durgante – Respondo a essa pergunta com uma expressão da já septuagenária escritora gaúcha Lya Luft: “Se alguém me amar agora, com certeza não será por um belo corpo que fatalmente irá mudar, mas pelo que eu sou hoje – sem disfarces. Nenhuma esplendorosa jovem de 20 anos me ameaça: meu território é outro.”

A felicidade, a aceitação de si próprio e o bem-estar pessoal não pressupõem a existência de uma beleza exterior ou uma pele lisa e sem rugas.

Sabemos, através de estudos científicos, que a felicidade depende principalmente do nosso estado de espírito, e o nosso bem-estar é determinado pela interpretação que damos aos eventos que norteiam a nossa existência.

Pouco vai adiantar a busca de apenas uma aparência mais jovem (ou menos velha) se interiormente, em relação a nós mesmos, nos encontrarmos vazios, comungando um sistema de crenças fortemente enraizado nos valores materiais. Possivelmente essa “batalha” contra a velhice já estará perdida, pois o processo de envelhecimento é inexorável, e essas técnicas de rejuvenescimento são limitadas e finitas.
Para que os limites da utilização desses métodos de rejuvenescimento não extrapolem o bom senso e a prudência, o embelezamento do nosso exterior deve refletir como realmente estamos interiormente.

FE – A “recusa” do envelhecimento pode estar atrelada a quais fatores?

Carlos Durgante – Acredito que primeiramente se deva a uma ideia equivocada que ainda se tem da velhice, qual seja, de que ao envelhecermos seremos menos dignos, menos merecedores, menos capazes, menos criativos, menos alguém, ou menos do que fomos antes.
Também, como discutido na pergunta anterior, há a questão das mudanças que se processam principalmente no corpo físico, tanto fisiológicas quanto aquelas em consequência das doenças crônico-degenerativas.

Rodrigo Bassi – Penso estar ligada ao preconceito e à excessiva importância dada à matéria – que é transitória. Sentimentos ligados à vaidade excessiva ou orgulho de sua condição social. Muitos buscam nos tratamentos médicos ou estéticos a pílula milagrosa ou a terapêutica que irá resolver os seus problemas e angústias sem esforço algum.
Também não podemos desprezar a força da mídia, o desconhecimento dos valores imortais do espírito e os objetivos maiores do processo de envelhecer. Novamente voltamos à questão, isso não significa descuidar do corpo físico ou da beleza exterior, mas dar a essas preocupações o peso e a relevância adequados às crenças e valores da pessoa.

FE – Qual a sua opinião sobre “certo ou errado retardar o envelhecimento?”

Rodrigo Bassi – Em primeiro lugar, saber o que significa “retardar o envelhecimento”. Se pensarmos em termos antiquados de envelhecer, como doença, fragilidade ou deficiência, acho adequado retardarmos ao máximo o declínio das funções orgânicas. Porém, acho inadequado se “retardar o envelhecimento” significar negar esse processo natural da vida e usar as mais esdrúxulas estratégias para manter a ilusão da juventude eterna, reforçando os sentimentos da vaidade numa busca desenfreada pela beleza exterior, esquecendo as construções valorosas do ser espiritual.

O que – dizemos novamente – não significa desprezar todo o avanço da medicina estética no sentido do autocuidado e na busca da beleza exterior. Apenas devemos utilizar esses recursos dentro do equilíbrio e da harmonia e sempre nos lembrarmos que o mais importante é edificarmos os valores imortais da Alma – o que nos trará a beleza interior, as alegrias do espírito e a vitalidade de nos sentirmos integrados com o Criador no fluxo da vida, na construção perene do amar ao próximo como a si mesmo.

Carlos Durgante – Na verdade, o processo natural do envelhecimento humano já vem sendo postergado ou desacelerado há algumas décadas. Por meio dos avanços médicos, tanto preventivos, quanto intervencionistas, especialmente pela adoção de comportamentos e atitudes saudáveis de vida, estamos retardando o surgimento das doenças crônico-degenerativas.

Nos países mais desenvolvidos e longevos do mundo, como o Japão, o aparecimento das “doenças próprias da idade” está cada vez mais sendo transferido e comprimido em um curto período de anos vividos, pouco tempo antes da morte física.

Como entendemos que o envelhecimento é um processo biológico, a tentativa de retardá-lo apenas com métodos puramente estéticos e/ou por terapêuticas médicas duvidosas e questionáveis nada mais é que mera ilusão!

Rodrigo Bassi é geriatra e presidente da Associação Médico-Espírita de São Paulo, entidade da qual também faz parte o Grupo de Estudos sobre Envelhecimento.

Carlos Durgante é geriatra e membro da AME-Rio Grande do Sul.