CAPELANIA HOSPITALAR ESPÍRITA

Inserida em: 12/01/2018


Início em Janeiro de 2018 no Hospital Estadual Dr. Guilherme Álvaro - Santos/SP com 70 voluntários divididos em grupos para atendimento hospitalar todos os dias da semana.

Tal projeto fraterno caritativo, gratuito, denominado Capelania Hospitalar Espírita, sob orientação da Associação Médico- Espírita (AME) de nossa cidade, tem sua importância reconhecida a nível internacional, com recente publicação na revista Journal of Religion and Health intitulada: ¨ Experience of the Spiritist Hospital Chaplaincy Service: A Retrospective Study¨ ¹.

 

1- RESUMO DA PROPOSTA

 

           Propomos um trabalho sério, estruturado, composto de grupo voluntário, com precedente capacitação teórica e prática, através de cursos preparatórios, com rigorosa triagem prévia e acompanhamento periódico promovido pela Associação Médico Espírita (AME) de Santos - SP, tendo com coordenador o Dr. Flávio Braun Fiorda (presidente da AME Santos) responsável pelos mesmos, com plena experiência para tal propósito.

           Para definição dos grupos capacitados, realizamos averiguação rigorosa conceitual dos verdadeiros preceitos religiosos fraternos pertinentes a este trabalho, aliados a visão integral do paciente, entendendo-o como nosso irmão, que carece não somente de tratamentos, métodos diagnósticos e tecnológicos de ponta, mas em especial, de um atendimento humanizado em sua internação hospitalar.

          O grupo de trabalho voluntário primará pela harmonia e padronização de condutas, respeitando as regras institucionais e rotina deste ilibado Hospital, colocando-se de forma solícita no contato com profissionais da área de saúde.

          No contato que nos for permitido aos pacientes, respeitando a sua vontade e livre arbítrio, objetivamos um atendimento fraterno, acolhedor, exercitando a solidariedade ao nosso próximo, escutando suas queixas, buscando confortá-lo com a leitura de mensagens edificantes e preces reconfortadoras, entre outras ações.

 

2- CONSIDERAÇÕES GERAIS E BASES CIENTÍFICAS  

 

      Ressaltamos a nova definição da Organização Mundial de Saúde (OMS), durante a 101st session of Executive Board, eight meeting, quando em 1988, propôs a emenda de sua constituição (Resolution EB101.R2), solicitando que a definição de saúde deixasse de ser: estado de completo bem estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença e enfermidades, para que fosse considerada como o estado dinâmico de completo bem estar físico, mental, espiritual e social². Assim ao termo espiritual, entende-se o respeito e a valorização ecumênica dos anseios e crenças religiosas dos pacientes, importantes no processo de adoecimento, bem como de tratamento.

         Dados recentes demonstram que em 1992 apenas 2% das Escolas de Medicina dos Estados Unidos ofereciam atividades relativas à espiritualidade, mas em 2004 elas já estavam presentes em 67% dos cursos. No ano de 2008, 100 entre 150 escolas médicas ofereciam alguma atividade ligada à espiritualidade em seus cursos, e em 75 destas 100 escolas a frequência a tais atividades tornou-se parte do programa regular de graduação3.

       Fortin e Barnet 4, ao estudarem as formas de inclusão da espiritualidade em atividades acadêmicas de escolas de Medicina, verificaram que elas são estruturadas de diferentes formas, tais como palestras, discussões em pequenos grupos, entrevistas padronizadas de pacientes, acompanhamento de capelães e leituras específicas.

    Na década de 1990, instituições como Association of American Medical Colleges, National Institute for Health Care Research e Robert Wood Johnson Foundation financiaram centenas de programas vinculados à relação entre fé e saúde 5.  A Association of American Medical Colleges e o National Institute for Health Care Research, reconhecendo a relevância ética e o volume crescente de evidências sobre a interconexão entre espiritualidade e saúde, têm patrocinado conferências para implementar o desenvolvimento curricular desta temática nos cursos pré-médicos e de graduação em Medicina nos Estados Unidos 6. Corroborando e ampliando esta diretriz, a Organização Mundial de Saúde e a Joint Commission on Accreditation of Healthcare Organizations recomendam incluir a espiritualidade no cuidado clínico e na educação em saúde7.

             Na importante instituição, Harvard University, há um consagrado projeto fundamentado de estudo do impacto da assistência espiritual através do serviço de Capelania Hospitalar e a prática da medicina composto por inúmeros pesquisadores e membros dos departamentos de Capelania Hospitalar do Harvard teaching hospitals, incluindo Brigham and Women's Hospital, Massachusetts General Hospital, Dana-Farber Cancer Institute, and the Beth-Israel Deaconess Medical Center Hospital.

            Existem entidades que se preocupam com esta relevante questão, como o John Templeton Foundation, oferecendo apoio financeiro às escolas médicas que iniciam o curso de Espiritualidade e Medicina. Ainda nos Estados Unidos existem muitos Centros de Pesquisa sobre Saúde e Espiritualidade ligados às principais Universidades como:  Duke University’s Center for Spirituality,Theology and Health, The George Washington Institute for Spirituality and Health, Center for Spirituality and Health – University of Florida, Center for the Study of Health, Religion and Spirituality Indiana State University, Medical University of South Carolina Center for Spirituality and Health, Center for Spirituality and Healing at University of Minnesota, Higher Education Research Institute at UCLA, Health Sciences Library System University of Pittsburgh Medical Center - Doctoral Dissertations on Religion and Medicine.

              No Brasil, destacam-se os seguintes Centros de Pesquisa sobre Espiritualidade e Saúde: Núcleo de Estudos de Problemas Espirituais e Religiosos, na Universidade de São Paulo, o Grupo WHOQOL-Brasil, instalado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde da Universidade Federal de Juiz de Fora e o Núcleo Avançado de Saúde Ciência e Espiritualidade, na Universidade Federal de Minas Gerais. A primeira Universidade brasileira a introduzir um curso de extensão universitária sobre Saúde e Espiritualidade foi a Universidade Santa Cecília em Santos, no ano de 2002.

 A primeira Faculdade de Medicina a abordar em seu curriculum como matéria, a questão da Espiritualidade foi na Universidade Federal do Ceará no ano de 2004, no ano seguinte, a Faculdade do Triângulo Mineiro8   iniciou disciplina optativa sobre Saúde e Espiritualidade, juntamente com a Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais e em 2006 a Universidade Federal do Rio Grande do Norte iniciou a Disciplina optativa de Medicina, Saúde e Espiritualidade ,além da Universidade de Taubaté (Unitau) , entre outras .

             Paralelamente a estas atividades institucionais, outras escolas médicas também possuem grupos acadêmicos que realizam Seminários sobre Saúde e Espiritualidade, como na Universidade de São Paulo, criando o PROSer (Programa de Saúde, Espiritualidade e Religiosidade) do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP ;  na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, na Universidade Estadual de São Paulo / Botucatu ;  no Centro Universitário Lusíada em Santos e na Universidade Federal de São Paulo, cujo Simpósio ocorrido em  abril de 2007, tendo um público médio de 300 pessoas por dia, demonstrando o grande interesse que este tema desperta na comunidade acadêmica, estimulando a criação do Núcleo Universitário de Saúde e Espiritualidade da Unifesp- o NUSE (Núcleo Universitário de Saúde e Espiritualidade) . Na Universidade Federal de Juiz de Fora o surgimento do NUPES (Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde). Na Universidade de Campinas (Unicamp) utilizou-se de seu curso de bioética para abordar o assunto.

           Segundo D'Souza 9, a formação médica ocidental tem como foco os aspectos físicos e o cuidado dos pacientes, não inserindo as questões espirituais como parte importante dos currículos das escolas de Medicina, embora haja evidências de que os pacientes querem e inclusive esperam que seus médicos abordem estas questões. Segundo o autor, reconhecer as necessidades espirituais seria uma parte essencial da medicina centrada no paciente.

              Harold Koenig 10 ressalta em sua pesquisa, a relação positiva entre envolvimento religioso e saúde física e mental encontrada por diferentes pesquisadores e envolvendo indivíduos de diferentes filiações religiosas, idades e condições sociais e econômicas.

            Desta forma, vê-se com clareza, a importância de abordar-se a espiritualidade dos pacientes, com respeito a sua crença religiosa, facilitando a ação de agentes de consolo e revigoramento de sua fé, os capelães, nos momentos mais difíceis de profundo adoecimento.   

      

3- EMBASAMENTO LEGAL  

 

  A ação dos capelães, voluntários, devidamente capacitados, é reconhecida e assegurada em nossa Constituição Brasileira, bem como em Resolução de Lei, abaixo detalhada:

Constituição Brasileira de 1988

    ¨ É assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva¨ (CF art.5º, VII).

 

Resolução Lei nº 9.982 /12 abril de 2.000

   Artigo 1º: ¨Aos religiosos de todas as confissões, assegura-se o acesso aos hospitais da rede pública ou privada, bem como aos estabelecimentos prisionais civis ou militares, para dar atendimento religioso aos internados, desde que em comum acordo com estes, ou com seus familiares, no caso de doentes que já não mais estejam no gozo de suas faculdades mentais ¨.

 

4- PROJETO

 

      Realização de visitas fraternas, voluntárias, pelo grupo triado e capacitado de capelania espírita onde a abordagem, extremamente respeitosa, ocorrerá mediante o consentimento do doente, ou de seu familiar, quando o mesmo estiver impossibilitado pela gravidade de sua doença, nas situações de enfermaria ou em regime de tratamento em unidades de cuidados intensivos.

Neste momento, o capelão coloca-se pronto para ouvir as angústias e sofrimentos dos enfermos, bem como seus familiares. Através da leitura de mensagens edificantes, busca-se o resgate de sua fé e religação com Deus. Após, realiza-se uma prece em benefício do enfermo e, quando consentido e ou solicitado, realiza-se a transferência e doação de fluidos magnéticos, através de imposição simples de mãos e fluidificação da água, encerrando-se na oração do Pai Nosso.

       Ressaltamos também a importância que este projeto prima, na religação com Deus e estímulo a religiosidade, independente da crença, onde o capelão espírita é orientado que, para aqueles pacientes que demonstrarem interesse pela visita de outro grupo voluntário religioso (católico ou evangélico), facilitarem este acesso comunicando ao setor de enfermagem tal desejo.

            O trabalho da Associação Médico-Espírita (AME) de Santos visa colaborar eficazmente na humanização dos profissionais da área de saúde, facilitando o contato com conteúdos edificantes, espiritualizados, através da veiculação de mensagens escritas em murais, visando desenvolver, em cada um, uma visão mais humana no trato com o doente, facilitando o despertar de  seu desenvolvimento pessoal , através da  necessária reforma íntima e no entendimento de olhar ao doente como a um irmão em sofrimento , que necessita de nossa atenção e amor , além de nossa necessária e  importante , destreza em conhecimentos. Para tal, nos predispomos a promoção de palestras abertas aos interessados, sob a ótica espiritualista, pungente e crescente no universo médico acadêmico.

            As visitas realizadas, anotadas em protocolos de atendimento, devidamente validados, com  fichário e questionário, sob consentimento prévio, mais uma vez, de familiares e/ou doentes, organizam deveras, o respectivo atendimento, bem como propiciam futuros dados para compilações científicas pela AME Santos, contribuindo para as pesquisas envolvendo espiritualidade, saúde e atendimento capelão , como a recentemente publicada e noticiada no início deste texto , no Journal of Religion and Health , ¨ Experience of the Spiritist Hospital Chaplaincy Service:  A Retrospective Study¨ ¹ .